Dislipidemia e risco cardiovascular
Tudo num lugar só: IMC, LDL calculado por três fórmulas, taxa de filtração glomerular pela CKD-EPI 2021 e risco cardiovascular pelas equações PREVENT. A partir daí, a mesma pessoa é lida por três referências — Londrina/SBC, ACC/AHA 2026 e PEER 2023 —, porque protocolos diferentes podem estimar riscos diferentes e propor metas de tratamento diferentes. Junto vem o número de pacientes que precisariam ser tratados para um se beneficiar. Adulto de 30 a 79 anos; há avisos próprios para idoso e criança.
Dados do paciente
Cenário inicial ilustrativo. Ajuste aos dados reais da consulta.
Estas caixas colocam o paciente direto na faixa de alto ou muito alto risco, sem depender do escore. Doença renal crônica e LDL ≥ 190 mg/dL são detectados automaticamente pela TFG e pelo lipidograma.
- HDL baixo (48 mg/dL)
- Hipertrigliceridemia (180 mg/dL)
Estimado pelas equações PREVENT (AHA 2023), modelo base, sem termo de raça.
Risco relativo de 0,75 para eventos cardiovasculares maiores, aplicado ao risco deste paciente (PEER 2023). O dano vem de 15% de sintomas musculares com estatina contra 14% com placebo no primeiro ano; depois disso a diferença deixa de ser significativa.
Londrina / SBC
Fármaco sobretudo se LDL persistir acima de 160 mg/dL. Atenção: os pontos de corte do Escore de Risco Global estão sendo aplicados ao PREVENT, que estima risco menor — pelo ERG este paciente poderia cair uma faixa acima.
ACC/AHA 2026
Risco limítrofe: terapia é razoável após decisão compartilhada (classe 2).
PEER
Risco < 10% em 10 anos: sugere apenas repetir lipidograma em 5 a 10 anos, com nova estimativa de risco.
As referências chegam a leituras diferentes neste paciente. Nesse cenário, o número de pessoas que precisariam ser tratadas para uma se beneficiar, acima, costuma ajudar mais na conversa do que qualquer um dos limiares isolado. Vale lembrar o perfil de cada uma: o PEER é o mais parcimonioso ao indicar tratamento, e a diretriz de 2026 é a que trata mais cedo.
Apoio à decisão clínica. Não substitui a avaliação do paciente nem o julgamento profissional. As três referências aparecem lado a lado porque protocolos diferentes podem chegar a resultados e metas diferentes — a leitura final é sua e do paciente. Confira doses, indicações e contraindicações na diretriz vigente antes de qualquer conduta.
Exames a solicitar (4)
- Perfil lipídico: CT, HDL, triglicerídeosnão é preciso estar em jejum — CT, HDL, LDL e não-HDL não sofrem influência do estado alimentar
- TGO/TGP antes de iniciar estatinaLondrina 2023 recomenda avaliação basal das enzimas hepáticas; o PEER sugere contra dosar CK e ALT de rotina — os protocolos diferem neste ponto
- TSHexcluir hipotireoidismo como causa secundária
- Investigar causas secundárias de hipertrigliceridemiaálcool, descontrole glicêmico, hipotireoidismo, síndrome nefrótica, medicamentos
Tratamento (3)
- Dieta mediterrâneareduz eventos cardiovasculares em 25% a 30% em 5 a 7 anos, em prevenção primária e secundária (PEER 2023)
- Atividade física regularaeróbico > 30 min, 5 vezes por semana, com progressão de intensidade, combinado a treino resistido (Londrina 2023, quadro 09)
- Restringir açúcares simples e álcoolperda de peso reduz os triglicerídeos em até 20%
Seguimento (3)
- Pactuar a meta com o pacientenão pactuar meta e não aprazar retorno estão na lista de erros comuns do Guia de Londrina
- Aprazar retorno para reavaliação3 a 6 meses após instituir mudança de estilo de vida
- Repetir lipidograma em 5 anosUSPSTF; intervalos maiores se os níveis já foram normais mais de uma vez
Atenção (2)
- Orientar procurar atendimento se dor muscular ou urina escuratodo paciente em estatina; dosar CPK se houver dor, desconforto ou fraqueza muscular
- Contraindicado usar sinvastatina junto deitraconazol, cetoconazol, posaconazol, eritromicina, claritromicina, inibidores de protease, genfibrozila, ciclosporina e danazol